Monthly Archives: fevereiro 2013

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Cenas inéditas no Vaticano; por Alberto Dines

Renúncia, hipocrisia, renovação — palavras-chave de uma semana fadada a entrar na história não apenas da Igreja Católica, também do pensamento ocidental. O ponto alto do pontificado de Joseph Ratzinger não foi sua ascensão como Bento XVI, mas a forma escolhida para retomar a sua condição original e encerrar a sua missão.

Em Abril de 2005 os vaticanistas o classificaram prospectivamente como papa transitório, com um mandato curto, linear, desatentos à sutil gama de elementos espirituais geralmente postos à serviço dos intelectuais alemães. Geist, em seu idioma, é muito mais do que alma, é também moral, refinamento, entendimento superior, transcendência.

Na segunda-feira, a palavra usada para descrever a decisão papal foi renúncia, mais exato seria o substantivo abdicação: o sacerdote Joseph Ratzinger abriu mão do poder num mundo cada vez mais polarizado em busca de poderes, mas não capitulou como ser pensante, sensível, com uma noção muito clara dos deveres humanos.

Os pretextos iniciais de doença e fragilidade ou não foram bem entendido no latim do primeiro comunicado ou foram interpretados na escala de valores simplista da comunicação contemporânea. A verdade é que dois pronunciamentos depois este senhor de 85 anos, alegadamente debilitado, estava em forma.

Na última quinta, durante 45 minutos, naquele que deverá ser o último encontro com o clero da diocese romana, com firmeza  convocou a Igreja para uma “verdadeira renovação”. E ainda teve ânimo para enfocar questões altamente controversas e delicadas, como as distorções da mídia na cobertura do Concílio Vaticano II (1962-1965) e a responsabilidade dos católicos alemães no Holocausto.

O sermão na missa da Quarta-Feira de Cinzas, talvez o último, conteve uma candente denúncia contra a hipocrisia religiosa e foi consagrado por uma ovação dos presentes, de pé, estendida ao longo de vários minutos. Cena raramente vista no Vaticano.

As corajosas opções de Ratzinger acionam naturais remissões históricas e não apenas no tocante a Gregório XII forçado a renunciar há cerca de 600 anos para evitar uma fatal fragmentação da Igreja. Mais recentemente, há apenas 500 anos, outro sacerdote e teólogo alemão, igualmente bem fundamentado, denunciou a hipocrisia  que imperava na Cúria Romana sob a forma de venda de indulgências.

Martinho Lutero foi excomungado pela Igreja, perseguido pelo imperador, resistiu e produziu o maior cisma dentro do cristianismo. Nem tudo o que pregou estava correto, a epilepsia ou a megalomania o distanciaram dos princípios éticos da sua cruzada anti-clerical, mas a sangria do cisma luterano não pode ser desconsiderada mesmo meio milênio depois. A humanidade é a mesma.

Ao clamar contra a hipocrisia e proclamar a necessidade de renovação em seguida à inesperada abdicação,  Joseph Ratzinger exibe surpreendente desenvoltura. Sereno, desafiante, mostra aos vaticanistas que a transição começa agora.

Terminado o pontificado, pode começar um apostolado. Esta também é uma situação inédita nos anais do Vaticano.///

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Pequenas fatalidades e a grande calamidade; por Alberto Dines

Três semanas depois do incêndio em Santa Maria  já é possível prever algumas conclusões que sairão do inquérito policial. Ninguém acionou um gatilho, não há e dificilmente aparecerá um responsável central, o grande vilão em cima do qual será descarregado o luto federal.

A indignação produzida pela soma de tantas tragédias dificilmente encontrará um elemento isolado, capaz de converter-se em bode expiatório único. Tudo indica que o grau de letalidade do episódio foi produzido por um lamentável encadeamento de ilícitos, incúrias e imprevidências menores.

A imperiosa catarse – se efetivamente acontecer — não terá uma perversidade-mor para acioná-la. Este o maior desafio que se oferece às autoridades, às famílias enlutadas e àqueles cidadãos que, mesmo incólumes e distantes, sentem-se igualmente intoxicados pela fumaça do incêndio.

A rede de ilegalidades, negligências e  irresponsabilidades que convergiram para iniciar o fogo e provocar tantas mortes compõe um retrato administrativo do Brasil tantas as esferas que nela se incorporam.

A última foi revelada nesta sexta-feira quando Anthony Wong,  diretor do Centro de Assistência Toxicológica do Hospital das Clínicas de  S. Paulo denunciou como “descaso e ignorância” o fato de não fabricarmos no país o antídoto ao gás cianeto (o mesmo usado pelos nazistas nos campos de extermínio) e não prepararmos médicos e socorristas para usá-lo em emergências. Teve que ser importado às pressas dos EUA, só chegou uma semana depois, embora a hidroxicobalomina seja uma substância relativamente barata (faz parte do complexo B) e em muitos países sua fabricação seja custeada pelo Estado. Quantas vítimas levadas aos hospitais gaúchos acabaram morrendo por falta do antídoto e do treinamento para aplicá-lo? O denunciante falou em “ignorância” e se absteve de qualificá-la penalmente – ignorância dolosa ou culposa?

Um dos donos da boate está preso, seriamente enredado no inquérito, assim também o responsável pela banda que preferiu comprar um artefato pirotécnico barato e altamente inflamável. Logo se chegará à firma que fez o isolamento acústico do imóvel com materiais de fácil combustão ao contrário do exigido pelos protocolos.

Os bombeiros fizeram o que podiam na fatídica madrugada,  mas quantos bombeiros aposentados organizam-se em empresas-laranja para facilitar o licenciamento de obras? Qual o papel do sub-mundo da fiscalização espalhado pelo país e mantido pela criminosa religião de criar dificuldades para vender facilidades?

E a Doutrina Geral da Impunidade, o Princípio Elementar do Corporativismo, e o Código Nacional da  Corrupção – há anos nas manchetes — porventura não inspiraram as malfeitorias subterrâneas que produziram a chacina? Para que servem os vereadores além de passar o dia cuidando de ampliar os seus privilégios? Magistrados só devem estar presos aos processos que lhes são entregues, o que fazem os corregedores e o Ministério Público? As associações comerciais, uma das guildas mais tradicionais do Rio Grande do Sul, não deveriam estabelecer padrões mais severos de serviço ao público? Um modelo de negócio montado a partir da superlotação do estabelecimento – caso das boates, danceterias e baladas — não é, em si, criminoso?

O grande culpado é a monumental indulgência com tantos e tão  insignificantes réus.///