Monthly Archives: novembro 2012

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As duas implosões de “Manchete” (II); por Alberto Dines

Apesar do desabamento do Império Assis Chateaubriand, os Diários Associados estão ai: é o sexto maior grupo de mídia do país, responsável por 50 veículos, donos dos dois mais antigos jornais brasileiros e latino americanos (“Diário de Pernambuco” e “Jornal do Commercio, do Rio), do mais importante diário do DF (“Correio Braziliense”) e de Minas, “O Estado de Minas”. Mantém 11 rádios e 9 emissoras de TV.

Do Grupo Manchete nada sobrou. Monumental massa falida, espólio que só existe nas demandas judiciais (salvo uma pequena rádio em Niterói constantemente acionada pelos credores). Seu valioso arquivo fotográfico, abocanhado num leilão, entregue a comerciantes, corre o risco de desaparecer.

Uma história de sucessos convertida numa montanha de escombros. Um incrível e prolongado saque — auto-infligido, endógeno, regado a champagne francesa, servido com caviar russo, em porcelana Rosenthal e cristais da Boêmia.  Adolfo Bloch deu o exemplo, roubava e deixava roubar.

Os grupos não disputavam o poder, irmanados, disputavam o botim. Alimentavam os delírios do gráfico semi-analfabeto que se tornou um dos homens mais importantes do país. Quanto mais arrojados os saltos da empresa mais rentáveis seriam os assaltos aos seus cofres. Os contadores roubavam, os interventores roubavam, os consultores roubavam e para evitar qualquer esperneio todos se locupletavam. O empreendedorismo em estado natural.

Uma das histórias mais patéticas aconteceu logo depois da morte do fundador: Pedro Jack Capeller, seu sobrinho favorito, herdeiro e sucessor, informado dos saques que ocorriam de madrugada no suntuoso palacete onde funcionava a sede da filial paulistana, resolveu demitir o seu diretor. Não conseguiu: horas antes o espertalhão havia arrancado de Paulo Maluf um decreto batizando uma praça da cidade com o nome de Adolfo Bloch.

Arnaldo Niskier tem curso de sobrevivência em qualquer situação: no início do romance de Adolfo Bloch com JK conseguiu que “titio” obtivesse sua nomeação para Secretário de Ciência e Tecnologia da Guanabara. O governador Negrão de Lima, amigo íntimo e parceiro político do ex-presidente, não lhe poderia negar um pedido, nem JK negaria um apelo do seu hospedeiro-mecenas.

A  “eleição” de Niskier para a Academia Brasileira de Letras obedece aos mesmos paradigmas: candidatou-se à Casa de Machado de Assis ostentando no currículo apenas uma coletânea de livros didáticos de aritmética cuja autoria fora contestada publicamente. Desta vez, “titio” obteve o apoio do editor Abrahão Koogan que desde os anos 40 e 50 gozava de grande estima entre os acadêmicos.

Sentiu-se só naquele venerável ambiente e levou para o cenáculo das belas-letras brasileiras seu parceiro na empresa, o ex-repórter político da “Tribuna da Imprensa”, Murilo Mello Filho, autor das reportagens pagas pela governo militar à “Manchete” para propagandear o “Milagre Brasileiro” e, a reboque, seus artífices, os ministros Antonio Delfim Netto e Mario David Andreazza. Este último, coronel do Exército, acalentava o sonho de chegar à presidência com a ajuda dos grandes empreiteiros beneficiados em licitações para grandes obras.

As reportagens transformaram-se em livro com edições inteiras vendidas ao governo. Montado neste incomparável best-seller Murilo Mello Filho chegou à ABL.

A ilusão do milagre foi justamente a responsável pela débâcle do Império Manchete. O governo militar precisava de um concorrente para a TV-Globo, precisava, sobretudo, barrar o caminho de um grupo de S.Paulo que fazia um jornalismo de qualidade e conquistava o país, a Editora Abril. Convenceram Adolfo Bloch a candidatar-se a dois canais de TV disponíveis. Garantiram ao pobre empresário (que continuava pagando as despesas com “cheques voadores”) que, doravante, não lhe faltariam recursos para montar uma rede de televisão de alta qualidade. Nenhum dos comensais, cúmplices, confidentes e ghost-writers de Adolfo Bloch teve a coragem e a decência de aconselhá-lo a não meter-se naquela aventura.

O homem tinha sorte – diziam e o homem acreditava — valia a pena segui-lo, associar-se ao desvario. Sobraria grana para todos.

Não sobrou nada, “Manchete” soçobrou. Titulo furado, não se confirmou, apesar de alguns êxitos iniciais da rede de TV. Os que deixaram o barco antes do naufrágio, conhecidos roedores da família dos murídeos e agora intitulados de sobreviventes, estão bem de vida: respeitados, titulados e engajados na tarefa de impor sua versão de uma tragédia cujos ingredientes são a cobiça e a canalhice.///

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As duas implosões de “Manchete”; por Alberto Dines

Na manhã do último sábado, 11/11, uma carga de  75 quilos de explosivos derrubou em 11 segundos o prédio 511 da Rua Frei Caneca no bairro do Estácio, centro velho do Rio. Lá funcionou desde os anos 40 a empresa Gráficos Bloch e, a partir dos 50, a Bloch Editores cujo carro-chefe foi o semanário ilustrado “Manchete”.

A empresa faliu, o prédio estava ocupado há anos por um grupo de sem-teto agora transferidos pela prefeitura carioca. Em seu lugar será construído um enorme conjunto habitacional. Ao lado, o grande templo batista do Rio e do outro o Instituto de Identificação Felix Pacheco, do governo do estado. A vizinhança não poderia ser mais prestigiosa.

A carga de explosivos foi excessiva, aquele prédio estava corroído por um cupim invencível: a imoralidade coletiva. Um dia antes, (9/11), no excelente caderno de fim-de-semana de “Valor Econômico”, a colorida “Manchete” foi detonada pelo jornalista e historiador da imprensa Matias M. Molina com um texto pesquisado, preciso, rico e arrasador, “Uma revista e seu dono”, focado principalmente no criador do império implodido, Adolfo Bloch.

Trata-se de uma resenha genuína,  stricto sensu, sobre as lamentáveis “Memórias de um Sobrevivente: A Verdadeira História da Ascensão e Queda da Manchete” do ex-jornalista Arnaldo Niskier, hoje membro da Academia Brasileira de Letras.

Pseudo-resenhas foram publicadas na imprensa carioca quando o livro saiu do prelo. Editoras ou autores costumam fornecer textos promocionais, “exclusivos”, com alguns parágrafos elogiosos e o saldo irrelevante, destinados a tapar buracos nos cadernos ditos culturais.

Uma boa resenha acrescenta ao livro elementos fundamentais para a sua compreensão daí porque costuma ser guardada na estante dentro do volume que a motivou. Esta, ao contrário, o substitui tanto pela qualidade do trabalho do resenhista como pelo caráter tosco da obra resenhada.

O livro de Niskier é rigorosamente mentiroso. Estilisticamente deplorável, jornalisticamente obsceno. Quem o afirma é o próprio autor ao escolher o adjetivo “verdadeira” e assim chancelar sua coleção de patranhas. Ao designar-se como “sobrevivente” tenta  legitimar-se como testemunha. Não foi. Justiça lhe seja feita: sua participação é a de protagonista — um dos muitos convivas do banquete em que foi canibalizada uma experiência jornalística à qual grandes jornalistas ofereceram seu prestígio, talento e anos de vida.

Molina flagrou com muita sensibilidade a forma leviana e ligeira com que o depoente registra as atuações dos principais diretores da “Manchete”: Helio Fernandes, Otto Lara Resende, Nahum Sirotsky e Justino Martins. Pura vingança: nenhum deles jamais deu atenção a Niskier que, como chefe de reportagem, cuidava mais da distribuição de serviços aos fotógrafos do que da orientação aos repórteres ou  colaboradores.

Niskier se apresenta junto com Ney Bianchi como “os dois melhores repórteres da Manchete Esportiva”. Repórter mesmo havia um, Ney Bianchi (que participou de grandes coberturas desportivas internacionais), o depoente era noticiarista, categoria hoje inexistente. Quando ascendeu foi ajudar os irmãos de Nelson Rodrigues, Augusto e Paulo, na “cozinha” de uma revista mal-feita, burocrática, sem inspiração.

A peçonha que Niskier despeja contra Justino Martins é prova clamorosa da sua incompetência e perversidade. O gaúcho não foi apenas o correspondente da revista em Paris foi uma espécie de diretor à distância. Foi iniciativa sua a aproximação com a revista “Paris-Match” que Manchete em sua fase de ouro adotou como bíblia. Também o convênio com a Agência Magnum onde trabalhavam os mais importantes profissionais do foto-jornalismo internacional (Robert Capa, Cartier-Bresson, etc.). Valiosíssima a crítica das edições da revista que enviava aos diagramadores e secretários.

Revisteiro nato, sofisticado, culto, seu rival em “O Cruzeiro”, José Amádio, também gaúcho e também originário da “Revista do Globo”, operava preferencialmente na esfera do sensacionalismo onde brilhava a dupla Jean Manzon-David Nasser.

Niskier tenta distanciar-se dos excessos cometidos por Adolpho Bloch, mas ele o chamava de “titio” tal como a corte de bajuladores e intrigantes que passavam parte do dia — e sobretudo da noite —  emprenhando os ouvidos  daquele mujique, bronco, insensível e invejoso. Ou lustrando as botas do sobrinho “moderno’, Oscar.

Adolpho ajudou e protegeu Juscelino Kubitschek por vaidade e não por solidariedade, senso de justiça ou convicção política. Tanto assim que mandou Oscar associar-se a Delfim Netto e aos coronéis “desenvolvimentistas” para faturar o “Milagre Brasileiro” enquanto fazia o papel de mocinho e mandava os acólitos escreverem loas ao otimismo.

Como se fazem imortais (segue).

 

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Caprichos do Destino; por Alberto Dines

Articulado e cronometrado, o conjunto de ações do governo e do seu partido em defesa do núcleo político do Mensalão, careceu de igual cuidado em matéria de conteúdo.

Na segunda-feira, o STF decidiu castigar com rigor o ex-ministro José Dirceu — figura emblemática do caso – incluindo o seu encarceramento por quase dois anos. Na terça, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo fez uma candente denuncia sobre as miseráveis condições em que vivem os quase 500 mil presos no país. Na quarta, o ministro-caçula, Dias Tóffoli, sugeriu converter em multa as penas que impliquem em privação de liberdade. Neste mesmo dia, a direção nacional do PT investiu pesadamente contra a suprema corte, contra os paradigmas adotados em suas  deliberações e, sobretudo, contra a sua submissão a uma imprensa sensacionalista.

Neste elenco de iniciativas nada surpreendentes, convém destacar o pronunciamento caloroso, humanitário, do ministro Cardozo que  calou fundo e a médio prazo produzirá ações mais eficazes do que a política penitenciária dos governos na última década. Ao contrário dos xiitas do seu partido, o ministro não entrou no mérito do julgamento, não o desqualificou nem contestou o Ministério Público ou o Judiciário. Sua fala teve o dom de relembrar a manifestação do antecessor, Tarso Genro, quando em 2005 teve a ousadia de propor a re-fundação do PT.

Legítimo o desconforto do PT e de certas alas do governo federal diante do inédito rigor das condenações, compreensíveis sua perturbação e revolta. Mas ao investir contra o colégio de magistrados onde milita uma maioria esmagadora de indicados por presidentes petistas, os indignados estão tentando emplacar uma noção de lealdade, tipo “toma lá, dá cá”,  não muito distante da corrupção moral.

Embora o ceticismo no tocante ao comportamento da imprensa seja salutar, a nova ofensiva contra a imprensa é descabida. Quem está escancarando há mais de 100 dias o circo de horrores contido na Ação Penal 470 é uma emissora estatal, a TV-Justiça, cujo sinal é captado e reproduzido por uma emissora privada, a Globo-News.  A necessidade de tornar nosso judiciário mais transparente é antiga reivindicação dos setores                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  mais liberais e progressistas da nossa sociedade.

Os detratores  da suprema corte e do ministro-relator esquecem que na próxima quinta-feira, Dilma Roussef, primeira mulher a ocupar a Presidência da República deverá comparecer à posse de Joaquim Barbosa, primeiro negro a ocupar a chefia do Judiciário. Ambos indicados pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva. Contrariados e sinceramente magoados terão que conviver para sempre com o novo capricho do Destino.///

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A vitória de Obama e a derrota do Tea Party; por Alberto Dines

Não foi a demografia, o furacão Sandy, a ínfima melhora na economia, o carisma, a retórica e sua segurança pessoal: Barack Obama foi reeleito porque ofereceu uma mensagem sedutora, clara, embora moderada. E com ela desbaratou um dos mais perversos e perigosos inimigos internos que a Revolução Americana já enfrentou desde a sua vitória em 1774: o Tea Party, versão 2.0.

E o Tea Party foi o maior responsável pela derrota de Mitt Romney: se o candidato republicano não tivesse capitulado à histeria da ala mais radical do partido teria conseguido persuadir os setores conservadores mais esclarecidos a reagir à tentação totalitária que ameaçava tomar conta do país.

A prova deste racha no conservadorismo mundial está no endosso inequívoco oferecido a Obama pelas duas maiores publicações globais de economia e negócios: o semanário “The Economist” com 169 anos de existência e o famoso diário em papel cor-de-salmão,  “Financial Times”, o caçula da família Pearson, com 124.

Estão longe do conceito de “progressistas”, ambos são adeptos intransigentes do capitalismo e do liberalismo econômico. Porém jamais subtraíram dos leitores as trapalhadas e trapaças cometidas nos altos escalões das empresas do mercado de capitais que jogaram os EUA na atual recessão. Não cobraram de Obama as promessas não cumpridas da primeira campanha porque em 2008, em seguida à sua espetacular vitória, desabou o castelo de areia construído pelos economistas do grupo Bush. Ambos sabem que suas intervenções reguladoras foram decisivas para evitar a débâcle. O Estado que Obama defende não é um Leviatã desumano, seu combustível é a responsável social.

O prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, dono de um dos veículos jornalísticos mais importantes da área econômica, a Bloomberg News, também endossou a candidatura de Obama (era republicano, depois entrou no mini-grupo dos independentes). Seus motivos: o empenho do presidente na questão ambiental que o Tea Party e os republicanos menos esclarecidos e mais religiosos teimam em ignorar. Sandy acordou-os.

Barack Obama não é socialista e sequer social-democrata, assim como foi classificado como pós-racial também pode ser considerado pós-ideológico. Herdeiro da tolerância iluminista, adversário das segregações e supremacias, razão pela qual se tornou idolatrado pelas minorias.

Quer acabar com a miséria no país mais rico do mundo, quer que os mais afluentes paguem mais impostos do que os remediados, no que é apoiado com entusiasmo pelo bilionário Warren Buffet.

Membro Trinity United Chuch of Christ de Chicago jamais se preocupou com religião: seu pai, economista queniano, muçulmano não observante, sua mãe, antropóloga americana, ateísta. Obama menciona Deus porem não abusa, é capaz de jurar com a mão na Bíblia, mas incapaz de profanar a essência secular do sistema democrático.

Esta tolerância, abertura e transparência transformam-se naturalmente em vontade de acertar. Ela é que  empolga. Seu carisma é a sua sinceridade. Não embroma, não engana, trata as massas e os interlocutores como seres inteligentes que, por sua vez, respondem da mesma maneira. Perdeu o primeiro debate com Mitt Romney e ganhou os demais porque  sua entonação é de quem busca a verdade.

Graças a isso, converteu-se no norte-americano mais querido no mundo. A fama e a celebração desta vez encontraram um conjunto de valores que vale a pena venerar.///